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Proposta Pedagógica

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Proposta Pedagógica dos Cursos de Artes da Fundação Municipal de Artes de Montenegro-FUNDARTE

Júlia Maria Hummes[1]

Márcia Dal Bello[2]

A Fundação Municipal de Artes de Montenegro-FUNDARTE é uma instituição de ensino que tem como princípio pedagógico a perspectiva interdisciplinar, uma vez que oferece em seu currículo quatro cursos de Artes: Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. Os cursos estão alinhados às diretrizes e orientações sugeridas no Plano Nacional de Educação (PNE) Lei nº 10.172, de 9 de janeiro de 2001, uma vez que atende ao público dos diversos níveis da Educação Básica, cujos objetivos e prioridades dos PNE são: a melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis, bem como a redução das desigualdades sociais e regionais no tocante ao acesso e permanência, com sucesso, na educação pública  (PNE, 2001).

Desse modo, a concepção de Educação e Arte da FUNDARTE sustenta a proposição de que o ensino das linguagens artísticas deve ser oportunizado a todos, de modo a viabilizar a ampliação dos potenciais individuais, como parte da comunicação humana e do seu desenvolvimento ativo em apreciar, conhecer e fazer arte. O ingresso dos alunos nos cursos se dá por Edital e sorteio público, cujos alunos contemplados com a vaga podem solicitar enquadramento sócio econômico, mediante apresentação de documentos comprobatórios.

A equipe docente da FUNDARTE compreende a arte como instrumento que desempenha um importante papel na educação e na vida em geral. Cabe ao professor expressar conceitos e manifestar-se artisticamente, apresentando trânsito interdisciplinar, de modo a dialogar com educadores de outras áreas para atuação em projetos artísticos, educacionais e ou de pesquisa. Dessa forma, as relações de autonomia são valorizadas, como capacidade pessoal, de forma a abrir a perspectiva de uma nova relação com o conhecimento e a arte, o que reforça a ideia de que a diversidade humana deve ser entendida como ponto de partida para a construção do conhecimento em arte. Além disso, a perspectiva de educação da FUNDARTE compreende conhecimento das linguagens artísticas como um dispositivo de crescimento pessoal, em que tanto o professor quanto o aluno estejam em constante processo de transformação.

A partir dessa perspectiva, o professor deve ter a consciência de que, para estar em sintonia com o mundo contemporâneo, ele precisa estar apto a construir a sua prática docente, contemplando as diversidades das diferentes linguagens e suas interfaces. É fundamental também que ele incorpore as novas tendências e tecnologias, articulando a prática pedagógica com o fazer e, ao mesmo tempo, contribuindo para a formação do indivíduo consciente de sua ação transformadora, na sociedade do século XXI.

O currículo dos cursos é pensado a partir destes princípios e é construído coletivamente com os professores, a partir da perspectiva de que as teorias e metodologias atualizadas possam transitar, em consonância, com os interesses e expectativas dos alunos. Nesse sentido, a ideia de currículo da FUNDARTE se identifica com o pensamento defendido por Sacristan (1998), quando o autor afirma,

[…] o currículo é um campo no qual interagem ideias e práticas reciprocamente […] com um propósito cultural elaborado, condicionado a profissionalização do docente, onde é preciso vê-lo como uma pauta com diferentes graus de flexibilidade, para que os professores intervenham nele (SACRISTAN, 1998, P. 148).

 

A proposta do Curso de Artes Visuais tem como principal objetivo proporcionar aos alunos diferentes vivências na arte, à circular por experiências que envolvam o fazer, o olhar atento e a investigação em arte. Por meio da experiência criadora e da elaboração de conexões, hipóteses e ideias, busca-se uma educação crítica e poética de múltiplas visualidades e leituras de mundo, atribuindo sentidos e criando distintas formas de interpretação. O curso está organizado em Módulos, sendo a faixa etária mínima para ingresso aos 7 anos na Oficina Básica, decorrendo após para as Oficinas I, II, III, IV e Ateliê.

O Curso de Dança visa proporcionar às crianças e jovens a oportunidade de crescimento pessoal através da aprendizagem da técnica do ballet clássico, bem como oportuniza a possiblidade de refletir sobre artes, envolvendo os alunos em processos poéticos e promovendo vivências em dança. O curso está organizado em Módulos, da seguinte forma: Baby Class, Básico I, II e III, Preparatório I, II e III e Intermediário I, II e III. A faixa etária mínima para ingresso é de 3 anos. O Curso Básico de Ballet oportuniza aos alunos de turmas mais avançadas, a participação nos Grupos de Dança da FUNDARTE.

O Curso de Música tem como principal objetivo o desenvolvimento dos elementos técnicos necessários para realização musical de diferentes gêneros e repertórios do instrumento, o qual está organizado em Módulos: Inicial, para crianças de 8 a 10 anos; Fundamental, para alunos acima de 11 anos; Intermediário; Avançado e; Oficina de Adultos destinada aos alunos acima de 18 anos, exceto para os de canto, cuja idade mínima é 21 anos. Os Módulos trabalham os conteúdos relativos a linguagem musical, de forma progressiva e sequencial. A Oficina de Adultos tem a duração de dois anos, contemplando um trabalho inicial de musicalização. Além disso, para os alunos da educação infantil, oferece-se os cursos de Musicalização, na faixa etária de 4 a 6 anos e Musicalização através do Instrumento, para alunos de 6 e 7 anos. Aos alunos do Curso Básico de Música, a FUNDARTE oportuniza a possiblidade de participarem de grupos artísticos, os quais são os seguintes: Conjunto Instrumental, Grupo Cordas, Grupo de Choro, Grupo de Jazz, Guitar Band, Camerata, Orquestra de Sopros, Coros: Criarte, Cantarte e Saber Viver e finalmente, Grupos de Música de Câmara.

O Curso de Teatro visa oportunizar aos alunos a experimentação do fazer teatral, com base nas técnicas e princípios dessa arte.  Possui como único pré-requisito a idade mínima para o ingresso: seis (6) anos no módulo Expressão Dramática. Destina-se a qualquer indivíduo que possua vontade de experimentar o fazer teatral. O curso é organizado de maneira horizontal, o que quer dizer que não é adotada a divisão por níveis cujo progresso dar-se-ia pela averiguação de conteúdos ou eficiência. Ao contrário, busca-se o aprendizado como algo não fixo, demandando-se do aluno a criação de estratégias que o permitam inventar teatralmente, com autonomia e cumplicidade com o coletivo. A estrutura do curso compreende as seguintes turmas: Oficinas Básicas, para os iniciantes e Oficina I, II e III ´Para os alunos com mais vivência, o curso oferece  a possibilidade de participar do Grupo de Teatro.

Como curso interdisciplinar, a FUNDARTE oferece o de Iniciação às Artes, o qual oportuniza aos alunos a vivência e o diálogo com as duas áreas: Artes Visuais e Música. Esta modalidade se propõe a iniciar os alunos da educação infantil na área das artes, com o objetivo de que eles possam optar por ingressar num curso de arte, mais tarde, a partir de um processo de  alfabetização nas duas áreas oferecidas. A faixa etária para ingresso é de 4 a 7 anos.

A concepção de avaliação dos cursos da FUNDARTE é pensada como um processo de responsabilidade compartilhada entre professor e aluno, que baseia-se na negociação entre as partes e tem como principais objetivos a sua perspectiva diagnóstica e emancipatória. É importante salientar que o tema da avaliação é recorrente e, quase sempre muito polêmico, pois avaliar em Artes é um desafio, uma vez que as linguagens artísticas pertencem a um território onde não existe “o certo e o errado” ou “o bonito e o feio”.   Esse pensamento impõe a necessidade de se distanciar dos padrões tradicionais, de modo que a avaliação nas artes seja mais flexível e pautada no acompanhamento do processo artístico do aluno, buscando assim analisar vários resultados durante determinado período. Nesse sentido, reforça-se que avaliar “não é uma simples averiguação de aprendizagem, mas parte de um processo reflexivo e interpretativo que traz consigo um componente de subjetividade, apontando para uma dimensão estética e não apenas técnica” (MÖDINGER, C. R. et al., 2012, p.143).

Assim, avaliação adotada nos cursos da FUNDARTE é resultado da interação entre o professor e os alunos, onde cada um assume a sua responsabilidade no processo de aprendizagem. Mödinger (2012) reafirma essa ideia quando defende que […] avaliação é, pois, responsabilidade dividida, compartilhada entre professores e alunos. É o acompanhamento e o questionamento constante frente a competência de todos. Dessa forma, o autor continua afirmando,

 

[…] o resultado de um processo avaliativo nunca é unilateral, não revela o sucesso ou insucesso do aluno, mas o que ambos, aluno e professor, conseguiram alcançar em relação ao aprendizado, bem como o quanto foram eficazes as abordagens e práticas pedagógicas. Dessa maneira, avaliar não é lançar um veredicto sobre o aluno, mas analisar o processo educativo e todo sistema que o sustenta (MÖDINGER, C. R. et al., 2012, p.148).

 

Luckesi, outro estudioso sobre o tema, ratifica tais pensamentos quando aponta que “a avaliação não é uma ação mecânica isolada. Ela só tem sentido na medida em que estiver articulada com o projeto pedagógico da escola e com o projeto de ensino do professor, sempre visando o crescimento cognitivo e efetivo do aluno“ (LUCKESI apud MÖDINGER, C. R. et al., 2012, p.144).

Dessa forma, a avaliação proposta pela FUNDARTE também traz em seu referencial teórico, bem como está sintonizada com as ideias de personagens centrais da história da educação brasileira, como do Mestre Paulo Freire, quando contempla as aprendizagens trazidas pelos alunos no currículo desenvolvido nos seus cursos. Para o autor,

 

[…] a avaliação é a mediação entre o ensino do professor e as aprendizagens do professor e as aprendizagens do aluno. É o fio da comunicação entre formas de ensinar e formas de aprender. É preciso considerar que os alunos aprendem diferentemente porque têm histórias de vida diferentes. São sujeitos históricos, e isso condiciona sua relação com o mundo e influencia sua forma de aprender. Avaliar, então é também buscar informações sobre o aluno (sua vida, sua comunidade, sua família, seus sonhos…), é conhecer o sujeito e seu jeito de aprender (FREIRE, 2018).

 

Além disso, é importante ressaltar que o professor não pode esquecer porquê e para quem avalia. A ideia é que a avaliação possa contribuir para construção do conhecimento do aluno e possa satisfazer as expectativas de todos os personagens desta história: professor, instituição, familiares e principalmente o aluno. Tourinho reforça essa ideia ao afirmar:

 

[…] a avaliação é importante e necessária porque informa a instituição promotora, ao professor, ao aluno e a sociedade sobre os objetivos alcançados. A avaliação ajuda a delinear objetivos e informa sobre o objeto/produto que está sendo ensinado e retro/alimentando o ensino (TOURINHO. OLIVEIRA, 2003, p.25).

 

Na FUNDARTE, além da negociação sistemática entre professor e aluno em relação ao acompanhamento de objetivos traçados e alcançados, os alunos são avaliados quanto a frequência, ao estudo sistemático, a sua participação nas aulas, nas performances nas audições semestrais, nas Mostras, nas apresentações públicas e também, quanto a sua frequência nas apresentações artísticas, uma vez que é um valor primordial da instituição e dos seus cursos de artes, o desenvolvimento da apreciação estética. No final de cada semestre, o aluno elabora a sua auto-avaliação por escrito e o professor, um parecer descritivo, ambos registrados na ficha de avaliação.

Para finalizar e complementado as ideias trazidas neste texto, o qual apresenta a proposta dos cursos da FUNDARTE, é importante salientar ainda que considera-se que, para que os alunos construam conhecimento nas várias linguagens das artes, é fundamental criar práticas de sala de aula que forneçam aos estudantes a oportunidade de trabalharem coletivamente para desenvolverem hábitos e atitudes nos quais o social seja vivido como uma experiência emancipatória. Portanto, na concepção de educação da FUNDARTE, o ensino das Artes está vinculado ao saber cotidiano e articulado ao contexto sócio cultural do aluno. Entende-se que a experiência educativa deve ser um processo de inserção do sujeito na sua comunidade, considerando as suas manifestações culturais e contribuindo para a constituição de sua identidade.

 

[1] Possui mestrado em Educação Musical pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é professor adjunta da Fundação Municipal de Artes de Montenegro e Vice-Diretora Pedagógica da mesma instituição. Tem experiência na área de Educação Musical, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino de música e produção artística. Participa do Conselho Municipal de Cultura de Montenegro/RS como secretária. Coordena o programete “Por Dentro da Arte”, exibido pela TV Cultura de Montenegro/RS, canal 53. É autora dos Referenciais Curriculares de Música do Rio Grande do Sul/2012. Editora Gerente da Revista da FUNDARTE. Membro da ABEC (Associação Brasileira de Editores Científicos).

[2] Doutora em Educação, pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mestre em Educação, pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), Especialista em Psicopedagia, pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), graduada em Pedagogia, Habilitação: Supervisão Escolar, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP. De 2004 a 2010 foi professora na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul-UERGS, na Unidade de Montenegro. É Coordenadora Pedagógica da Fundação Municipal de Artes de Montenegro-FUNDARTE e Editora da REVISTA da FUNDARTE.Temas de pesquisa: saberes pedagógicos, formação de professor, ensino de arte, docência em música e teatro.

 

Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 49ª ed. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

LUCKESI, Cipriano. Avaliação da aprendizagem escolar. São Paulo: Cortez, 2005.

MÖDINGER, C. R. [et al.]. Artes Visuais, dança, música e teatro: práticas pedagógicas e colaborações docentes. Erechim: Edelbra, 2012.

SACRISTAN, J. Gimeno, PEREZ GOMES A. I. Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, Sul, 1998.

TOURINHO, C; OLIVEIRA, A. Avaliação da performance musical. In: HENTSCHKE, Liane; OLIVEIRA, Alda. Avaliação em Música: reflexões e práticas. São Paulo: Moderna, 2003.

 

Referências eletrônicas:

https://ednacristinadasilvasouza.jusbrasil.com.br/artigos/112145595/avaliacao-e-a-pedagogia-de-paulo-freire.Acesso 18/5/2018.